de Flô em Flô - flores 2003/05/07/17

TEXTOS FÓRUM DO FILME LIVRE - lista Cine8ito - 2002

o que propus pro gt de quinta não reflete na íntegra o que penso sobre os filmes experienciais. tenho uma tendência a pensar muito nestas questões pra tentar resolver MEUS problemas cinematográficos. até porquê acredito piamente que vivo um filme. nós. estou aprendendo ainda. eu sou meu experimento. e aquilo foram propostas.

sem experimento, não há cinema, claro. e é experimentando que se chega à algum lugar, o SEU lugar. mas, e quando se experimenta sempre e não se chega a lugar nenhum? digo, um lugar mais "alto" e mais "definitivo"? não superior àquele do começo, mas mais afirmado e apoiado nele?  crescimento substancial? mas qual é este crescimento substancial? quem quer o quê e à que horas? pra mim, este lance de amadurecimento parece não existir nalgumas pessoas. ambição mesmo, sabem? quem tá viajando sou eu?

boa hora pra falar de stockhausen. e que seria de nós sem stockhausen? sem a música-tema da modernidade? mas quem é capaz de RESPEITAR stockhausen pelo que ele produziu sem saber o que se fazia antes e o que se passou a fazer? que ele fez pra gente compreende-lo? deveria fazer algo de fato? ou já fez o suficiente? e qual é a suficiência do artista? ou na prática isto é impossível? e que me dizem de glauber, tomzé? não é um suficientemente equilibrado?

só acho que é preciso se discutir os "experimentos". julgá-los como certo e errado, filme ou não filme é simplista demais, sei. mas é o que muitos são obrigados a fazer por questões que o artista poderia resolver de n formas diferentes. e se não se discute o público e sua formação e o nosso papel nela e por ela, desinteressa e desanda. e isto tem a ver com linguagem e diversidade.

isto também depende de muitas outras coisas. sei lá. talvez tenha mesmo sido um pouco infato-juvenil, já que estamos falando de cinema com cineastas.

sobre as divagações evidentes que rolarão neste gt de linguagem, talvez isto dê o tom da discussão...e não se esqueçam: é tempo de MANIFESTO.

moira, te ligo de casa hoje.

meu tel é (19) 33855349

depois volto

abraços

rodrigo tangerino

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:::Quinta-feira, 29 de Agosto de 2002 02:57::::

Fórum do Filme Livre: encontro das sementes já plantadas: relato pessoal e coletivo.

por Rodrigo Tangerino

Domingo no mam de São Paulo pela noite era só vantagens. Depois duma das sessões do 13º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, nós, jovens entusiastas do cinema, não tímidos, subimos em nossas próprias costas e jogamos nossos filmes na telona do museu, na abertura do Fórum do Filme Livre, felizes.

Eu, que não conhecia de perto os organizadores nem nenhum outro realizador, já dispensara, como eles, a ingenuidade. E percebi isto logo na boca do auditório, antes da sessão.

Durante, postado na frente de filmes que eram dispositivos, aqui e ali as experiências iam se formando. E vou dizer: chacoalhou-se a roseira do cinema nacional. Os filmes corriam em diferentes direções e rápido.

E cada um - públicorealizador - corria também pra buscar os filmes dos outros, tipo de exercício, com a diferença que, ao final, a exaustão foi luz e novidades.

Como se quiséssemos terminar com o cinema e começar com o cinema.

Na grande discussão posterior, grandes foram os subsídios para se esquentar e rechear os gts, as idéias fervilhando: efetivo aumento da vontade e da qualidade do abraço ao projeto.

Amanhâ e quinta são os dias dos grupos de trabalho no CINESESC.

A potencializarão dos resultados das exibições e a concretizarão das propostas levantadas com respeito à todos: a busca.

E mais exibições no sábado e no domingo, o encerramento com as propostas alcançadas, todo o pessoal e um grito final.

 Depois já é segunda feira, começo de semana.

Já sinto uma falta precoce; já vejo o próximo logo.

Abraços à todos

Rodrigo Tangerino

informações sobre o forum no site

 HYPERLINK "http://www.forumdofilmelivre.hpg.com.br" www.forumdofilmelivre.hpg.com.br



Sobre as propostas da Moira no 2º dia do Fórum

por Rodrigo Tangerino

Com relação àquele texto que você redigiu e nos leu ontem, acredito muito na idéia dos trabalhos em comunidades/universidades pra formação de público. E principalmente pras comunidades periféricas que, ao meu ver, estão muito mais abertas às experimentações e à arte de uma forma mais livre, principalmente por causa do rap. E eles têm muito que nos ensinar sobre coletivo e buracos respiradouros.

Agora, sobre aquilo que me propus, construir algo ligado aos núcleos. 

A princípio, a formatação do FORUM DO FILME LIVRE como instituição e não como “merchandising” - o que diverge daquilo que moira propôs, visto a impossibilidade da existência de sedes do FORUM em cidades diferentes – respeitaria, de imediato, o formato das mostras e sua identidade, embora, evidentemente, alguns parâmetros de seleção e interrelacionamento entre os grupos devam ser descritos e respeitados.

Acho que a idéia principal não é a de implosão deste sistema que dispomos – o das mostras e tal –, mas a reformulação disto, tendo em vista, agora, uma unidade de significação, de apoio e de interesse coletivos. A responsabilidade maior, portanto, seria dos próprios núcleos que, enrijecidos pelo FORUM, cresceriam mais em qualidade e visibilidade. Chegaremos à qualidade através da quantidade. Se é que qualidade se mede assim, fácil.

 Um esquema de divulgação DEVE ser feito. Não podemos desprezar a net nem a facilidade da produção de um e-informativo, com textos nossos, críticas, falando dos filmes, do nosso cinema. Até um catálogo de filmes, com as visões do realizador, sinopse, gritos. Um site resolveria um dos problemas da exibição: como e onde ver. E um retorno do cara que foi lá e viu o filme, deve ser uma preocupação grande pro nosso crescimento enquanto entidade cultural.

A afirmação e sustentabilidade que o FORUM daria como instituição pros núcleos já existentes, a inserção de novos núcleos sob a orientação dos representantes do FORUM, tendo em vista sempre nossa proposta inicial da anti-exclusão e a presença indispensável da circulação de informações, via net e/ou impressa, é um resumo do meu ponto de vista, um ciclo sempre aberto porque não deve ser burocrático.

Os núcleos seriam responsáveis por promover debates com os realizadores e público em suas mostras locais, como aconteceu no domingo no mam – uma espécie de conferência explicativa que funcionaria como uma “manutenção” dos filmes, ou seja, exalta-los, discutí-los ou seja lá o que for preciso fazer pra encurtar os caminhos entre eles e o público.

A questão agora é promover uma consciência, não criar um código, como se costuma pensar o filme livre.

Partindo de um esquema de seleção dos filmes seguindo critérios impostos por nós, – o que não necessariamente acabe com o esquema de exibição que estes núcleos já citados promovem – o júri seria formado pelos representantes de cada núcleo acrescido de mais um representante dos outros núcleos e os filmes escolhidos em cada cidade também passariam por uma seletiva final, agora com júri geral, com a presença de todos. Isto a gente até pode discutir melhor. Tô pensando mais em como resolver isto.

O que precisa ser mais discutido são “os finalmentes”  da situação: vale a pena um prêmio material ou nossa relação com os realizadores deve ser mais de sustentação, levando seu filme adiante? Eu prefiro criar uma rede mesmo, tipo exibir os filmes finais (e sem hierarquia de classificação) nas cidades dos núcleos e, de repente, até promover estes filmes no circuito dos festivais nacionais. O problema é que aí ficaríamos à mercê dos caretas e tendo que agüentar os narizes torcidos. Mas, seguindo André Arieta, vale a pena estar em todos os lugares, marcando presença e causando coisas às pessoas.

Toda a vantagem deste esquema de mostras e exibições é que se pode traçar um mini-caminho pros realizadores, uma mostra competitiva em sua cidade ou região, com o consentimento de TODOS ligados ao fórum – no sentido de todos saberem o que está acontecendo mesmo nos núcleos fora de suas cidades.

Outro parâmetro importantíssimo seria as cotas pros formatos, que podemos detalhar juntos. O que menos importa pra nós, agora, são os formatos.

Um relacionamento com universidades também é importante: os estudantes interessados ainda existem, a maioria assustados com a relação experimental/comercial. Até, uma coisa que é extremamente legal, é a possibilidade de se criar locais para a experimentação com suporte técnico, oferecido pelas universidades, mais ou menos como um local de pesquisa estética e de novos caminhos.

Bem, acho que é isto

abraços

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Data: 11, 12 e 13 de junho

Local: sala do centro cultural Evolução

Informações: Rodrigo Tangerino: (11) 9954-8052

Durante os dias 11, 12 e 13 de junho, quarta, quinta e sexta-feira, a partir das 19:00h, ocorrerá, no Centro Cultural Evolução (rua Regente Feijó, 1087, Centro), o Panorama livre olhar de Campinas, evento que exibirá vídeos experimentais de diversas cidades do país, incluindo inscrições de vídeos campineiros. Após as exibições, ocorrerá debate. 

A mostra audiovisual, com apoio do Museu da Imagem e do Som (MIS), terá entrada franca e reunirá trabalhos vencedores no Festival do Livre Olhar - realizado em Porto Alegre -, que conta com trabalhos experimentais Cuiabá, Porto Alegre, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, Goiânia, Caxias do Sul e Campinas; trabalhos campineiros e de cidades do interior e filmes dos participantes do Forum do Filme Livre, ocorrido no em agosto/setembro do ano passado em São Paulo. Haverá também, como homenagem, a exibição de filmes de Maya Deren, ícone da vanguarda cinematográfica americana dos anos 40 e 50. Segue, abaixo, texto explicativo dos curadores do evento, Rodrigo Tangerino e Natália Loyola Cruz.

Não é de hoje que os grandes festivais de cinema e vídeo do Brasil não contemplam de forma respeitosa e coerente a produção do audiovisual experimental. As dificuldades de exibição destes filmes – trabalhos que buscam a formação crítica e não a mera recepção passiva da platéia - aliadas a conceitos estéticos passadistas de grande parte dos jurados, deslocou para o sucateamento esta forma de expressão que, cristalizada no início do século passado pelos soviéticos, posteriormente tomada pela vanguarda européia e americana e arejada no Brasil nos anos 60 e 70, abordou em primeiro plano a busca de uma identificação audiovisual embasada na pesquisa de linguagem.

Contudo, através de esforços vindos de pequenas produtoras espalhadas pelo Brasil, foi possível que um grande passo fosse dado: o que ficou conhecido como Fórum do Filme Livre, ocorrido em agosto de 2002, a vertente mais instigante do 13° Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, não só pela liberdade artística, mas pela retomada e reformulação daquele espírito transformador que parecia dissipado.

Aquele evento, que serviu como um termômetro da produção independente experimental, teve continuidade graças às trocas constantes de informações, ao enrijecimento do projeto inicial e à consciência coletiva adquirida entre os “livres” e culminou no Festival do Livre Olhar, evento que apresentou ao país os trabalhos mais interessantes e inovadores de todo um panorama nacional.

O Festival do Livre Olhar - que aconteceu em Porto Alegre entre os dias 29 de abril e 4 de maio - trouxe inovações em diversos segmentos: teve organização e curadoria de jovens cineastas/videastas experimentais – o que não seria possível sem os apoios culturais e logísticos de instituições importantes no âmbito cultural -, prêmios inusitados, aboliu a “hierarquia de suportes” e apresentou mostras paralelas não convencionais. 

Uma das partes mais importantes do projeto do Festival do Livre Olhar é a Itinerância, ou seja, o deslocamento de parte das produções apresentadas durante o festival e seu redimensionamento no contexto local no qual será inserida. Estas mostras acontecerão, num primeiro momento, nos berços das produtoras envolvidas – Niterói, Campo Grande, Caxias do Sul, São Paulo. O motivo das Itinerâncias é muito simples: para que os trabalhos destes realizadores desconhecidos tenham uma visibilidade condizente com a diversidade do próprio festival, é imprescindível uma descentralização. 

É importante salientar o pioneirismo de todo o projeto do Festival do Livre Olhar no contexto nacional e, agora, no de Campinas, cidade com um ambiente universitário e artístico tão férteis. 

O Panorama Livre Olhar/Campinas será apresentado durante três noites (11, 12 e 13 de junho), numa das salas do Centro Cultural Evolução e terá como “Programas”, respectivamente:

11 de junho, quarta-feira: Panorama Festival do Livre Olhar: mostra sem caráter competitivo que visa apresentar ao público campineiro os vencedores do Festival do Livre Olhar, bem como alertá-los para o nascimento de uma nova vertente de evento audiovisual na cidade;

12 de junho, quinta-feira: Panorama Livre Olhar Campinas/Interior – Um Salto ExperiMental: também sem caráter competitivo, visa reunir os trabalhos de realizadores de Campinas e de cidades do interior sem espaço para mostrar suas produções mais a homenagem à Maya Deren,

13 de junho, sexta-feira: Panorama Livre Olhar Campinas/Interior – Um Salto ExperiMental e ‘Mostra Filme Livre”: segunda fase de exibição dos filmes de Campinas/Interior e uma “revisita” à exibição do Fórum do Filme Livre.

Nos três dias, as sessões serão iniciadas com um filme premiado convidado – do âmbito experimental – e encerradas com debates para fomentar a discussão. 

Como parte do Panorama Livre Olhar Campinas – Um Salto ExperiMental, uma vídeoarte recepcionará o público, que encontrará duas televisões em “diálogo”, bem ao estilo FLUXUS de Nam June Paik, pai da videoarte. 

Maiores Informações pelo tel: (11) 99548052 com Rodrigo Tangerino ou Natália Loyola Cruz - Curadores do “um salto experiMental”

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ras de Glauber, é que toda manifestação artística está em fina sintonia com seu recorte histórico e com as inquietações que diretamente ele produz. O pacote movimento Hip Hop subverte, sozinho, 4 áreas da representações que são indissociáveis e compõem um quadro de vanguarda que brota dos excluídos, pondo em cheque as possibilidades
Então, o que é aqui? É resposta ácida, responsável e fantasiosa produzida por um longínquo sistema que envolve leis de incentivo sectaristas (existem roteiristas que desenvolvem seus temas sem palavras!), esquemas de distribuição e exibição baseados no comércio – falar que ele é basicamente americano – e no descrédito por parte daqueles que ainda procuram o encaixado, a magra conexão realista. 
Seguimos num caminho de enrijecimento estrutural de uma produção que se oferece viva para o público, se opõe ao prosseguimento das seqüências do alto circuito e não impõe uma regra tampouco a tangencia.
Frustrar a “simplicidade” e a “facilidade” audiovisuais: nós subvertemos a fruição, buscamos afirmar uma intervenção mais viril no cotidiano e a interpretação dele a olhos frescos, que problematizem o modo e a necessidade da visão múltipla, plural, não industrial.
Que significa retomada? Alguns frutos esparsos, os mais radicais ainda acorrentados. O curta metragem, quer no recluso ambiente estético da universidade ou ditado pela velha dicotomia belo-feio, 
Foi esquecida a importância da radicalidade enquanto base para se produzir e para amadurecer. As experiências funcionam como evolução. Um fruto – seja um curta ou um longa – sem as características da experimentação estético-taméticas parecem.

Buscar a nossa radicalidade própria é que garante um diálogo mais pertinente com a atualidade e possibilita frutos de real interesse estético e social.
Uma das chaves para a proliferação destes bichos-filmes, muitos ainda trancados dentro de qualquer corpo que o suporta sozinho, são os aplausos e a redimensão das platéias: iniciar um processo de inserção lento, furando tal ferro duro através de ações afirmativas, de amor mesmo aos filmes; uma rede que vem sendo construída por uma determinada facção de realizadores ligados ao filme experimental, cujo ápice se materializa no Festival do Livre Olhar, em Porto Alegre, em sua segunda edição em 2005. Eu vi e estive. Sou ainda mais entusiasta do que propriamente um realizador. E creio que é hora de se permitir.

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A pré-Leso e sua transformação

2002 foi um ano decisivo pra LesoVídeoFilmes, e o motivo que nos levou a encarar o mundo do áudiovisual. Eu, que cursava Comunicação Social na PUC-Campinas, e já arranhava - e lesava! - pequenas produções em VHS, assistindo ao Canal Brasil, nos deparamos com um grupo de realizadores que pareciam ser a cara do que a gente queria produzir: filmes livres, voltados à pesquisa da linguagem da imagem em movimento. Naquele ano, no Centro Cultural Banco do Brasil carioca, aconteceu a primeira Mostra do Filme Livre, com gente importante de diversos estados. Na matéria citada, seus idealizadores falavam de suas produções desgrudadas do cinema/vídeo tradicionais e que, a partir daí, jogariam nova luz àqueles que se arriscavam no suporte. Vi Maya Pinsky, cineasta formada pela FAAP, falar sobre o seu Último Dia de Cão, documentário-registro sobre a relação dela e de sua família com seu cão, que precisou ser sacrificado e vi Biah Werther e André Arieta, do Coletivo Cinema8, de Porto Alegre, que coordenou, na ocasião, as oficinas de Super8 ministradas no encontro, além de terem sido, por conta de sua expressão no cenário curta-metragista do Brasil, um dos grupos que engendraram a Mostra. Fiquei extasiado com aquilo e logo entrei em contato com os gaúchos para tentar uma aproximação. A Leso já tinha realizado um VHS experimental, o Sacô?, em 2002, filmado despretensiosamente, mas que já tinha feito algumas aparições no cenário campineiro e recebido alguns elogios de pessoas da área. Naquele momento, integrávamos o Grupo CIM - Campinas Imagem em Movimento, que atuava na cidade realizando cineclubes temáticos e curtas experimentais, e foi através do Sacô? que eu me integrei às suas atividades. A Zangá Fimes, produtora hoje extinta, dos queridos Victor Epifânio, Janaína Damasceno e Rodrigo Braga que nos auxiliavam e nos davam suporte para a finalização das nossas tímidas produções.

Com o sucesso da Mostra do Filme Livre, a organização do Festival de Curtas Metragens de São Paulo, através de Rita Carvalhoza - uma das coordenadoras do Festival -, Biah Werther é convidada a realizar, dento da edição daquele ano, o Fórum do Filme Livre, que aglutinaria, mais uma vez, produções não convencionais na sala de cinema do MAM-SP. Sempre aberta à integração de novas pessoas e ideias, fizemos o cartaz para o Forum e levamos nosso curta para sua primeira exibição num cenário de relevância nacional. Me lembro de André Arieta dizendo: "Seu curta foi o melhor que exibimos. Como foi feito?" e - inesquecível! - não esqueço o abraço apertado com que Biah Werther me recebeu naquela noite fria, antes da sessão, no Jardim as Esculturas do MAM. Foi a porta de entrada que a recém formatada produtora campineira precisava para alçar vôos mais altos, estimulada pelo reconhecimento de gente relevante da cena independente do Brasil.

2003: o primeiro "cadinho", as primeiras sementes

Em 2003 vem a notícia do 1º FLÕ - Festival do Livre Olhar, que seria realizado em Porto Alegre, com direção do Cinema8 e que teria mais duas edições - das quais também participamos, em 2005 e 2007. O Flõ foi um dos primeiros festivais do país a abolir a hierarquia dos suportes: até ali, filmes em vídeo não concorriam com filmes em película nos festivais convencionais porquê eram considerados inferiores em qualidade visual e técnica. Nele se enterrou, definitivamente, essa visão ultrapassada e, não por acaso, foram vídeos eletrônicos que receberam os principais prêmios do Festival: o nosso Sacô? - inscrito para a competição pela querida Maya Pinsky -, recebeu o prêmio Pesquisa de Linguagem e Marcellvs L. - que enviara seus Rizomas para 11 festivais, sem sucesso -, recebeu os troféus "Erosão Corneana" e "Filme Livre". Foi a primeira aparição da LesoVídeoFilmes num encontro de proporção nacional. Atento aos realizadores do "cinema de invenção", o Flõ, em sua primeira edição, homenageia o mestre Ozualdo Candeias com uma retorspectiva de seus trabalhos e a estreia de "XXXXXXXX", baseado na obra de Tenesse Williams. Marginal não só nos conteúdos de seus filmes mas também na meneira de produzí-los e distribuí-los, o infante terrible bocadolixiano ainda nos saúda com o lançamento de seu livro de fotografias "Boca do Lixo", com imagens de bastidores de diversas produções daquele período e revela-se, como confirma seu olhar cinematográfico, um fotógrafo still bastante sensível, o que contribui sobremaneira para a compreensão detalhada e documental do nome-código reconhecido como um dos movimentos mais inventivos do cinema latino americano e mundial. O documentário realizado durante essa primeira edição do Festival - que batizei irônicamente de "As Estranhas Entranhas do Flõ" - mostra o autor e seus discípulos convivendo amorosamente durante os quatro dias em que chacoalhou a fria Porto Alegre. 

Outra ação inventiva do Flõ 2003 - e que se estenderia pras outras duas edições - foi as Itinerâncias, que levavam destaques do festival para outras cidades: o primeiro Panorama Flõ foi em Santa Maria - através de Sheila Zago - e o segundo aconteceu em Campinas, iniciativa que a Leso encampou com muito orgulho e felicidade. Realizada no Centro Cultural Evolução, um dos espaços culturais mais interessantes da cidade, o Panorama Livre Olhar - Um Salto ExperiMental levou mais de 30 filmes aos olhos campineiros, além de uma homenagem à Maya Deren, ícone do cinema experimental americano e mundial. Os filmes visionários desta realizadora eram raríssimos e nossa retrospectiva de sua obra só foi possível porquê Maya Pinsky tinha obtido um VHS com seus principais curtas nos Estados Unidos e, graciosamente, nos disponibilizou essas relíquias, hoje facilmente assistíveis no Youtube. Foi um sucesso e, mais uma vez, fomos incentivados à promocão e curadoria de mostras e cineclubes com a intenção de apresentar filmes fora de circuito, aproximando à essas produções um público jovem e interessado, que dificilmente teriam acesso à eles.

2005: o Flõ em sua "segunda dentição"

Em 2005 acontece a segunda edição do Flõ-Festival do Livre Olhar. Com a mesma configuração do primeiro - Mostra Competitiva, estreias, debates, projeções multimídia e homenagens -, as ações...(o que mais?)
Anselmo Duarte, um dos maiores atores brasileiros, personalidade sempre aberta à novos desafios, é o homenageado da vez. Sua atuação em "República dos Assassinos" (1979), de Miguel Faria Jr., baseado no livro homônimo de Aguinaldo Silva é realmente deslumbrnate e iluminada. Segundo BiAh WerTHer - multiartista, agitadora cultural e diretora do Flõ -, o longa figura "entre as produções mais relevantes do cinema brasileiro". 
Vale a pena resaltar, nesse ano especificamente, o lado polemista de BiAh WerTHer, especialmente no que toca às questões do Movimento Cineclubista, repercutidas em relevo nacional. A Carta de Porto Alegre, redigida por ela na ocasião do 2º Encontro Gaúcho de Cineclubes tece, de maneira elegante, críticas à entidades audiovisuais estabelecidas e, por isso mesmo, gerou muita controvérsia na cena.

O período entre 2004 e o fim do primeiro semestre de 2005, olhando crítica e retrospectivamente para a história da Leso, foi o mais encolhido criativamente: a mudança para Jundiaí, retornando dos quatro anos de intensa produção e reflexão teórica e prática em Campinas - através da militância exercida pelo Grupo CIM - Campinas Imagem em Movimento e da intensa troca com o grupo gaúcho -, dirigiu nossos trabalhos para o que chamo hoje de "documentário-documento", ou seja, a documentação visual de materiais diversos, notadamente com a intensão de utilizá-los - e recriá-los mais tarde -, como aconteceu com o processo do Sacô?. Mesmo assim, nosso curta experimental "Pot Pourri", de 2005, com cenas colhidas nas Paradas LGBTTS de Campinas e São Paulo de 2003, narrava os dois eventos a partir de planos que seriam descartados num documentário "bem feito" ou "bem acabado" - daí o subtítulo referencial "imagens lixo" -, foi convidado à compor a Programação e ainda fomos delegados à Assistente de Produção em algumas sessões. O "imagens lixo", como prefiro chamar essa experimentação, ainda em 2005, teria aparições inusitadas no Bar dos Amigos, em Jundiaí, onde servia de "ilustração visual", sendo apresentado, como clama a videoarte, num monitor de televisão. Também foi nessa época que André Arieta, grande cineasta e um dos articuladores do Coletivo Cine8, responsável pelo conjunto de trilhas sonoras mais instigantes que já se viu na cena curta-metragista nacional, compõe uma verdadeira "sinfonia de ruídos" para o nosso não menos ruidoso curta "Cataclisma", editado primitivamente entre uma câmera VHS, um monitor de TV e um vídeocassete, ressaltando e assumindo as falhas e defeitos que essa técnica propicia. 

No segundo semestre de 2005, depois desse hiato ao qual involuntariamente submeteu-se nossa vídeo-expressão, o repertório da LesoVídeoFilmes se alimentaria, a partir de agora, do rico e pululante ambiente carioca, iniciando uma segunda fase com o ingresso na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e, pouco tempo depois, na hoje extinta TVROC, a TV Comunitária da Rocinha, atuando na produção e edição de matérias e documentários. Foi ali, nesses dois espaços transformadores - o primeiro pelas figuras-pérolas que nos tutoravam em direção ao que existia de melhor em termos de estudo, produção, crítica e currículo no âmbito cinematográfico e, o segundo, por ter-nos aberto a dimensão antropológico-social - e, portanto, "humanista" -, referente ao povo e aos costumes da maior comunidade da América Latina. 

2007: o fim - começo? - de outros processos

É o ano da última edição do Flõ como Festival mas atesta a ampliação das ações do Coletivo Cine8. É a edição que homenageia dois gigantes do cinema brasileiro: o saudoso montador, diretor e professor Ricardo Miranda, dono das mais potentes e mirabolantes técnicas de montagem que nossa tradição visual já revelou - e aqui vale ressaltar a importância que teve, por exemplo, na primeira fase da carreira do antropólogo e artista visual Artur Omar, sendo decisivo para experimentos como os curtas "Congo", de 1972, e "O Som", de 1973 - e Luiz Rosemberg Filho, outro experimentador de visualidades, cuja técnica de recortes e sobreposições de imagens merece um lugar de destaque pela sua jovialidade extremamente atual e crítica, podendo ser ladeado - em termos estéticos -, à um Bill Viola ou à uma Agnes Vardá. Apesar de não termos apresentado nenhum trabalho nesta edição, participamos, ao lado de André Arieta e do Rô - como chamávamos graciosamente o Luiz - do Júri do Flõ e, aqui, mais uma vez, precisamos reverenciar BiAh e o André pela generosa indicação. Numericamente, foi a edição que mais recebeu inscrições, inclusive internacionais em contagem record, e algumas produções - entre premiados e destaques - iriam percorrer o território nacional através do Cinema na Mochila, projeto-tentáculo lógico da missão cineclubista e aglutinadora característica do coletivo gaúcho. 

(Definir as ações mais relevantes: 

CINEMA CUSTOMIZADO | figurinos, objetos e adereços
Oficina com biAh weRTHer
EM NOITE DE ESTRÉIA SIMULTÂNEA DO CURTA GAÚCHO ‘UMA’, EM POA E BARCELONA, O ..CINEMA 8ITO.. E A BIBLIOTECA DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL FESTEJAM PARCERIA INOVADORA.
loca no CCC
invasão no 512)

Ainda imersos na "fase carioca", e com uma produção documental e videográfica bastante larga, dentro e fora da ECDR e da TVROC, forma-se o Grupo Intervalo Carioca, uma homenagem ao CINE-OLHO de Dziga Vertov, mais diretamente a uma de suas aplicações de montagem, o "Intervalo Vertoviano", espécie de "decupagem visual a partir do movimento das máquinas ou de qualquer outro elemento cinético". O GIC já era consolidado antes de sua existência "consciente" e iniciou-se a partir da confluência de afinidades entre três alunos - e amigos! - da ECDR e que, depois, trabalharam juntos nas dependências da TVROC: a estudante de Roteiro Aline Lourena, e os estudantes de Direção Cinematográfica Bruno Teixeira Martins e eu, Rodrigo Tangerino. Essa erupção produtiva - era absolutamente prazeroso filmar coletivamente, mesmo que esses materiais não tivessem uma aplicação pré-estabelecida ou objetivada para gerar um produto finalizado, como requer e sustenta a maioria das produções fílmicas -, se coloriria pela presença de BiAh WerTHer, que passou uma temporada no Rio de Janneiro a trabalho, trazendo uma agitação importantíssima àquele momento, o que foi decisivo, no meu caso, para a construção do meu curta de formatura, a ficção "O Beijo", que estava sendo rodado naquele momento. Digo "decisivo" porquê foi ela, com sua bagagem e visão apuradíssimas, que nos orientou - e acabou fazendo parte do elenco - em muitos entraves que só um filme feito por estudantes pode concatenar. O curta ainda não foi lançado - e lá se vão quase 10 anos! -, e, como diretor do projeto, deleguei à ela a trilha e sonorização daquilo que ainda me parece um "copião organizado", ainda precisando de retoques de ritmo.


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