Campinas Imagem em Movimento – o Grupo CIM - no triênio 2002/03/04
A primeira vez em que se ouve falar do Grupo Campinas Imagem em Movimento - ou simplesmente "CIM" -, pelo menos fora de seu núcleo inicial, já atuante no início de 2002, foi no seminário “O Cinema Possível”, um dos muitos kinomeets realizados no auditório do Instituto Agronômico de Campinas, na Barão de Itapura. Espécie de imã, reunia realizadores importantes da cena local: Lucas Vega, o homem por traz do Festival de Cinema Super8 de Campinas, divulgador do suporte em oficinas realizadas no Instituto de Artes da UNICAMP; Janaína Damasceno e Vítor Epifânio, diretores da produtora Zangá Filmes - na época ainda ao lado de Rodrigo Braga, produtor e militante do Grupo Identidade Pela Diversidade Sexual de Campinas; o Kid, videasta ligado ao Estúdio Nômade de Body Art, famoso também pelos happenings multimídia que organizavam; a seminal Brócolis VHS, nas personas de Mariana Meloni e Leandro Vieira, já um marco e espelho para produções independentes locais, além do diálogo com realizadores de outros estados.
Deflagrava-se, ali, uma necessidade coletiva de expressão e atuação sócio-cultural que se daria, inicialmente, através da conjugação dos conceitos básicos do cineclubismo: discussões em grupo, exibição e debate de filmes e, por fim, a produção e veiculação de vídeos. Timidamente, ao final do seminário, os primeiros integrantes do CIM divulgam suas atividades em andamento, convidando o público para seus encontros abertos.
Mabel - "A primeira vez que eu fui no CIM, fiquei depois da reunião papeando um tempão com o Orestes (Toledo) sobre cinema. Essa é minha memória mais forte desse grupo. Foi incrível poder encontrar pessoas que amavam cinema tanto quanto eu."
Tina – “Cheguei (ao CIM) por meio da divulgação de uma amiga, a Mabel (Lopes), hoje formada em Audiovisual pela ECA-USP. Lembro que estávamos num evento sobre cinema e ela divulgou os encontros do Grupo. Na hora me interessei, perguntei as datas dos encontros e me incorporei rápido. Nos encontrávamos no MIS Campinas - Museu da Imagem e do Som de Campinas, antes mesmo da restauração do Palácio dos Azulejos e foi nesta época que conheci este espaço maravilhoso que frequento até hoje.”
Os Cineclubes eram comuns na época e passaram a fomentar propostas mais ambiciosas na esfera audiovisual, individualmente em de cada espaço. No caso do Grupo CIM, o primeiro esforço coletivo rumo à formatação futura foi a fundação de um cineclube nas dependências da PUC-Campinas, coordenado por estudantes alunos de diferentes áreas mas que compartilhavam experiências semelhantes: tinham assistido e discutido clássicos da sétima arte mais ou menos na mesma época e se mudaram as vidas. O resultado não foi satisfatório, especialmente pela pouca adesão do público universitário, o que deu a seus idealizadores ainda mais fôlego na busca de outros parceiros.
Paulo - "Em meados de 2002, começamos a passar uns filmes na PUC-Campinas, das oito e meia até umas dez e meia e o Afonso (Machado) sugeriu a realização dos debates. O (Leandro) Paraca, estudante de Publicidade e agitador empolgado, começou a fazer os cartazes pra colar no DCE (Diretório Central dos Estudantes). Pra você ter uma ideia, a sessão terminava e a gente ia debater o filme fora da sala, porquê todo mundo saía, não estavam a fim do debate. Não deu certo e decidimos buscar outras alternativas."
Afonso - “Havia nesse período uma pequena agitação cineclubista entre estudantes da PUC-Campinas. Na realidade, foi um período de luta cultural, em que a conjugação entre estética e política fazia com que acreditássemos na possibilidade de uma intervenção crítica na cidade de Campinas - depois vieram os partidos, a radicalidade e escolhas de cada um etc. O cineclube que a gente pôs pra funcionar na PUCC não deu certo, então decidimos criar um grupo destinado ao estudo, exibição e produção cinematográfica, que passou a funcionar graças à abertura do Museu da Imagem e do Som de Campinas, o primeiro lugar que a gente foi buscar ajuda pra dar continuidade à ideia."
O contato com o Museu da Imagem e do Som de Campinas marca o início oficial do Grupo, que passaria a se reunir periodicamente em sua sede, no centro velho de Campinas. Não demorou muito para que ficasse conhecido e aumentasse seu número de integrantes, atraídos pela possibilidade de discutir cultura via linguagem fílmica, aproveitando a aproximação daqueles que também iniciavam sua imersão no cinema, apaixonados que estavam pela amplidão e alcance desse veículo.
O Palácio dos Azulejos, prédio histórico cravado no centro velho de Campinas, construído em 1878 e ornamentado com azulejos portugueses - daí seu nome - é, ainda hoje, a sede do MIS: o casarão enorme, meio a meio preservado e deteriorado, com um pátio interno convidativo à criatividade e experimentações de toda ordem, era o espaço - público! - por excelência de encontro do grupo. Foi a sua ocupação e consequente dinamização que subsidiou o alcance das atividades do CIM e o seu próprio - interno à instituição -, atento que estava à energia e potencial daquelas pessoas, através de seus gestores e educadores. Os salões do grande museu Além de encampar as reuniões e estudos - onde se discutia e planejava os detalhes de suas ações -, ainda era palco para sessões livres de cinema, eventos sócio-culturais e comunitários, ao lado de ações "formativas" características do espaço, como palestras, encontros e oficinas.
Paulo – “O MIS-Campinas já realizava algumas atividades e cedeu um lugar pra gente, um espaço. A gente levou a sério: tinha horário marcado pra se encontrar e estudar o cinema e suas ordenações pontuais: como a técnica se aliava ao contexto histórico e à classe social que eles pertenciam e tal. O cinema se revelou naquela turma numa forma do poder político: sua linguagem e seus autores como “artistas”, capazes de assimilar a realidade daquele momento específico, como se existisse uma antena, transferindo aquela sabedoria pro filme. Foi a brecha que a gente precisava e desde o começo a gente sacou que tinha uma procura legal e que ia seguir adiante."
Afonso - “No MIS-Campinas, a gente encontra o apoio daquele que seria o nosso mentor e companheiro de luta: Orestes Toledo. Na minha opinião, ele é até hoje um dos principais guerrilheiros culturais da cidade de Campinas, sempre atento a capacidade de ação política dentro da linguagem cinematográfica.”
A figura quase mítica que Orestes Toledo representou para o Grupo CIM - então sócio-educador do MIS/Campinas e um exemplar militante contra-cultural, responsável pela coordenação geral dos encontros e articulação concreta de suas proposições -, era o link entre o papel primordial do espaço público (o museu) e os anseios do grupo. Figura empolgada, entre a cinefilia e o comunismo praticante, foi facilitador de todo o processo, um fio real na engrenagem daquele período borbulhante. Para o cenário cultural de Campinas - em especial para os integrantes do Grupo CIM - na memória aqui suscitada, é parte certa - como um "guru" e companheiro pleno na luta cultural, orientado e orientando pelo caminho do desvendamento; sua visão “socialista” pura, aliada aos conteúdos contestadores das melhores vanguardas estudadas, parecia ter encontrado representação prática naqueles jovens, que inversamente o influenciavam também nesse movimento, com teor sempre colaborativo, preenchendo a necessidade mediadora entre instituição e o público latente.
Orestes - "Um aspecto importante da existência do CIM mostra a legitimidade do MIS-Campinas, ou seja, o grupo foi criado pelas pessoas pra discutir cinema, mas tendo como local de encontro uma espaço público. A importância do Grupo de Estudos criando e diamização do espaço houve exibições, a importância da apropriação interessada em dinamizar o espaço, ocupá-lo. O museu cumpre seu papel de não ser só um museu: além da passagem pelo seu espaço, que é público, o grupo percebeu que poderia se apropriar dele. As pessoas se conheceram no local através das afinidades, como criar um grupo de estudos em cinema. O papel do espaço é fundamental para esses grupos gerarem tais afinidades: o espírito cineclubista (exibição, discussão e realização), falar e escrever sobre, os subsídios dos debates. Era um grupo aberto e, na medida em que ele vai realizando suas atividades, vai se tornando conhecido e as pessoas interessadas se aproximam. É um momento que vai sendo definido ao longo da história, fazendo.”
A primeira atuação concreta do coletivo foi a realização de um Cineclube periódico, organizado em Ciclos temáticos, que se realizaria no auditório do MACC - Museu de Arte Contemporânea de Campinas. Conhecido pelo prestígio de suas exposições e fomento ao artístico intrínseco, o projeto deu vazão e suporte, a abertura "pública" imaginada para seus resultados, permitindo também que fossem agregados à ideia inicial de "exibição" e "debate" outras iniciativas, como o informativo "Cadernos do CIM", cujos textos - com teor ao mesmo tempo explicativo e crítico -, eram redigidos por seus próprios integrantes. Os Ciclos tinham curadoria coletiva e traçavam panoramas de movimentos importantes do cinema mundial: a cada semestre eram exibidos cerca de dez filmes diferentes, sempre com um público espontâneo satisfatório, o que tornava o feed-back mais e mais instigante. acho que não Em dois anos de atuação, foram abordadas as seguintes escolas: Cinema Novo, Cinema Marginal, Cinema Soviético e Cinema dos Trabalhadores, este último com foco nas produções que problematizavam a relação estado-trabalhador.
Tina – “Eu ajudava na organização das mostras temáticas (organizamos a Mostra sobre Cinema Marginal; Trabalhadores - em homenagem ao Dia do Trabalhador, com filmes sobre a temática; e Cinema Soviético), escrevia no jornal que distribuíamos nas sessões, o “Cadernos do CIM" (tenho todas as edições guardadas até hoje!), que tinha a função de aprofundar as discussões feitas após os filmes. Como uma das organizadoras das mostras, eu também cheguei a mediar alguns debates, o que não podia faltar num cineclube com a configuração do nosso."
Paulo - "As primeiras sessões de Cinema Novo através da assessoria da Tina, já atraiu um público e nós também chamamos pessoas do nosso convívio. Os ciclos surgem da própria necessidade política da gente, da evolução política que a gente vinha enfrentando, se jogando: os debates iam muito além do filme e os “Cadernos” eram uma análise politica, de esquerda e tal.”
Orestes - "A partir dos encontros no MIS e tendo ideias comuns, a sequência dos trabalhos foi natural: os integrantes passam a estudar cinema, ver filmes e discuti-los e o passo seguinte é a produção de filmes. "MANEQUIM" foi uma experiência concreta desse processo."
Paulo – “Conhecemos o pessoal da Zangá Filmes, que capturaram e finalizaram o vídeo. O argumento foi escrito pelo Afonso - aquele esquema dele do caderninho azul de capa dura. Ele rasgou a folha e me deu e eu roteirizei o Manequim, de acordo com aquela conversa que a gente tinha tido no começo, naquela mesma noite. Foi uma coisa mais técnica do que criação, na verdade. Os caras da Zangá fizeram meio na camaradagem entre captação e finalização em três dias. Foi bacana por que a gente não sabia fazer e aprendeu e saiu do jeito que a gente programou, locação etc.”
Afonso - “Este curta (MANEQUIM) é um gesto de revolta absoluta no plano do audiovisual. Através da liberação do inconsciente, a equipe acabou expressando uma espécie de crítica onírica, o que parecia um tanto paradoxal. De certa maneira, foi o prenúncio do coletivo no combate ao conceito da sociedade burguesa, que, inclusive, seria uma constante nos trabalhos posteriores, travados individualmente depois do término do grupo.”
Tina - “Outra forte lembrança foi a produção do curta-metragem em vídeo "Campinas: um recorte", vídeo que foi gravado em um final de semana e depois editado em uma semana, todo no esquema camaradagem entre amigos e integrantes do CIM. Este vídeo teve uma produção coletiva e foi um instrumento de aprendizagem para o grupo, que estudava cinema e queria ter uma experiência prática. O CIM foi um grande espaço formativo para todos os integrantes e muitos resolveram trabalhar com vídeo, cinema e comunicação, anos depois da experiência. Claro que já tinham uma afinidade e uma vontade, por estarem no grupo. Mas, acredito que o grupo só reforçou esta paixão pela arte do cinema.”.
Paulo - “O Campinas já foi diferente porquê a gente sabia o local que a gente queria, o que o personagem tinha que fazer, inclusive o enquadramento, o filme é noventa por cento roteiro. A ideia sempre foi a de fazer alguma coisa, se formando na faculdade, era uma coisa que a gente estava buscando um\a profissão. com o manequim foi assim também. vc e a cris estão aí.”
Ainda à alocar:
Entrevistados: Paulo Roberto Rodrigues (Jornalista), Afonso Pereira (Professor de História), Cristina Álvares Beskow (Jornalista) e Orestes Toledo (Professor de Sociologia), Mabel Lopes (videomaker)
conduziam, a seis mãos, a recém formada Zangá Filmes, responsável pela produção e finalização de “Manequim” e de “Sacô?”, ambos lançados em 2002 e marcos-zero da trajetória de seus realizadores
Não deu certo e alguém teve a ideia de ir até o Museu da Imagem e do Som de Campinas. Foi a brecha para o CIM e para suas atividades.”
“A viagem do CIM começou primeiro por quê a gente curtia cinema, o (Leandro) Paraca e o Afonso. A gente tinha visto os mesmos filmes, na mesma época: “Cidade dos Sonhos”, “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”, “1984”.

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