31032005 historia do cinema - cinema marginal
– A política do Desbunde – (resumíssimo de época)
“...quando a gente não pode fazer nada, agente avacalha e se esculhamba...”
D’O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.
Acerca do ninho – o golpe de 1964
Em meados de 1963, o Governo de João Goulart já não dispunha de qualquer apoio da burguesia. Os investimentos internos no país caíram abruptamente, levando a situação econômica quase à estagnação. O governo estava ameaçado não só pela imprensa que defendia o impedimento de suas atividades, mas também pela classe média que temia uma “cubanização” do Brasil, além, é claro, das conspirações tramadas por grupos de oficiais das Forças Armadas. Este panorama culminou, tão logo, no Golpe Militar de 1964. A partir daí, e em especial com a decretação do Ato Institucional nº 05, o plano cultural e os outros setores da sociedade brasileira ficaram sob a vigilância do novo regime que truncava as movimentações mais exacerbadas e as respondia com violência, chumbo e intolerância. Não é sem razão que, ao final dos anos sessenta, o campo artístico já estava entregue à subversão e à negação plena do discurso burguês. O Regime Militar, mais e mais, continuava cimentando as últimas brechas e tentava destruir um sistema de arte que fugia de seu controle e inspeção. Equilibrado neste eixo é que um grupo de artistas de diversas áreas revisitaram os grandes saltos estético-teóricos do final dos anos 50 e início dos 60 para criar uma arte metafórica que tentava driblar o sistema, subverter a ordem e alcançar um vislumbre libertário. Nascia a “contracultura”.
O “udigrudi”
Glauber Rocha, figura central do Cinema Novo, criticava o recém intitulado Cinema Marginal afirmando que este era uma “velha novidade” e atribuía a ele o título de “udigrudi”, termo empregado com caráter pejorativo, neologismo que advém da palavra “underground” (subterrâneo) e que era – e é – utilizada para designar determinada produção artística que, por opção ou não, corre às margens do sistema tradicional de arte e busca na liberdade conceitual e técnica a experimentação de novas possibilidades de linguagem. De fato, no início dos anos 40 houve, nos Estados Unidos, um tipo de produção cinematográfica que ficou conhecida como o “Underground Americano”, que teve seu início com Maya Deren e desembocou, quase duas décadas depois, nos polêmicos filmes observacionais de Andy Worhol. Por aqui, os saltos estéticos do Cinema Marginal colocavam nossa sétima arte em sintonia com a angústia desta geração que, apoiada no slogan “seja marginal, seja herói”, de uma bandeira de Hélio Oiticica, reproduzia visceralmente seus anseios e sua tradução plástica dos anos de chumbo. Concomitantemente ao advento cinematográfico, também afloraria outros movimentos artísticos irmãos em rebeldia e experimentalismo: o Tropicalismo, o Teatro Oficina, a Poesia Marginal (esta mais intensamente a partir dos anos 70), além dos avanços nas artes gráficas, na dança, do surgimento dos happenings (mais radicais que aqueles dos Neoconcretos), etc. Interessante é perceber como estas manifestações negava o caráter político/engajado da arte antecessora, buscando uma espécie de “retrocesso de tecnologia”, um primitivismo processual, muito semelhante propositada e inevitavelmente ao projeto internacionalista do pensamento poético-filosófico de Oswald de Andrade: o Cinema Underground Brasileiro não dispunha de um discurso “politicamente correto”, típico da esquerda mais conservadora, como acontecia na fase mais radical do Cinema Novo e, ao mesmo tempo, tentava distanciar-se do balde de alegorias que alguns cinemanovistas tinham mergulhado; o Tropicalismo, como afirmou Caê certa vez, apoderou-se de toda movimentação musical à qual a Bossa Nova tinha se abdicado para se afirmar como estilo e reutilizou o esquecido, transformando a música Brasileira numa mescla de estilos variados, rompendo as barreiras entre o bom e o mau gosto, o requinte e o brega, o certo e o errado, a alta e a baixa cultura; a Poesia Marginal – também conhecida como a Geração do Mimeógrafo – distanciava-se da Poesia Concreta alegando não haver entre os poetas tamanha rigorosidade literária/lingüística.
Elenco/Coletânea de Características
Boca do lixo (centro de São Paulo como foco da maioria da produção, cenário primal-estético do movimento) – distanciamento do discurso político – rigor estético X pastiche – desarticulação/fragmentação da narrativa convencional – interpenetrações temáticas caóticas – non sense – intenso hibridismo com outras áreas artísticas – desbunde comportamental – personagens em situações-limite – aproximação com o escatológico – escracho com os costumes/instituições burguesas (família, casamento, igreja etc) – violência desamparada – retomada das vanguardas inclusive européias – atração pelo popularesco – sentimento de espreita – crítica ao intelectualismo – anticlimax e frustações cênicas – terror aliado à curtição – sexo e drogas como possibilidades de transgressão da ordem – retomada do plano seqüência com outras abordagens – animalização do homem e de sua condição (vide “O Cortiço”, de Aluízio Azevedo).
Autores-diretores (principais?) e suas (principais?) crias
- José Mojica Marins – A Meia Noite Levarei Tua Alma (1964), Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1966);
- Ozualdo Candeias – A Margem (1967);
- Rogério Sganzerla – O Bandido da Luz Verfmelha (1968), A Mulher de Todos (1969);
- Júlio Bressane – Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), O Anjo Naceu (1969);
- Andréa Tonacci – Bang Bang (1970);
- André Luiz de Oliveira – Meteorango Kid, o Herói Intergaláctico (1969).

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